19/03/2009

"A Clockwork Orange" - o auge da sátira no cinema



Não arrisco dizer que este é o meu filme favorito, tenho muitos nesta categoria. Mas uma coisa é certa, este é o melhor filme de extraordinária sátira à hipocrisia social que alguma vez vi.
Dirigido por Stanley Kubrick, "A Clockwork Orange" é um dos filmes que merecem a classificação de obra-prima, sem hesitar. 
Trata-se da saga de Alex deLarge (Alexandre, o Grande) representado pelo excelete actor Malcolm McDowell. Um delinquente juvenil que após ser traído pelos membros da sua gang, vai para a cadeia e lá se oferece a um tratamento que o "condicionará ao bem". Livre do mal, ele é solto de volta à sociedade que dele se irá vingar.


Tematicamente, é um grande ataque à hipocrisia. A sociedade que considerou Alex um criminoso violento e perigoso revela-se ao fim tão ou mais violenta do que ele. A prisão para o qual ele é enviado com o objectivo formal de ser "regenerado" é, nas palavras do governador, "um instrumento de punição".
O "tratamento" ao qual Alex é exposto para torna-lo "bom" mostrar-se-á um instrumento de desumanização muito mais perigoso do que o próprio comportamento de Alex. Não é à toa que depois do guarda prisional, o anti-herói Alex é o personagem mais simpático do filme.
Já ouvi muitas pessoas dizerem que, Alex no fim do filme, fica curado e reintegrado à sociedade, mas considero que, quem acredita nisso acaba por perder o ponto da abordagem cínica de Kubrick.
Alex, depois de terem julgado como desumano o tratamento aplicado ao jovem, a meu ver volta a ser o mesmo delinquente do início, o que acentua ainda mais a hipocrisia retratada por Kubrick - primeiro 'curam' o rapaz com um tratamento de choque, depois tratam de reverter a cura para torná-lo de novo um assassino? É de facto, pura sátira à sociedade. Se antes de ele ser preso, Alex era tido como assassino, agora e por ter sido submetido a este tratamento considerado horrendo já passa a ser um pobrezinho? São estes pormenores que fazem de mim uma apaixonada pelo filme.

MacDowell, excelente actor que raramente é bem aproveitado, é aqui soberbo ao ponto de nunca mais ter se livrado da sua personagem. Os demais actores são todos excelentes, apesar de nenhum deles ter tempo em cena suficiente para desenvolver um perfil da sua personagem.
O trabalho de criação da violenta Inglaterra futurista também é perfeito. A combinação da direcção de arte, figurinos, com a excelente fotografia de John Alcott cria uma imagem de futuro realista como poucos do cinema.
Por fim, o trabalho impecável de direcção de Kubrick. O director estava sem dúvida na sua melhor fase, realizando anteriormente dois outros filmes excepcionais ("Dr. Fantástico" e "2001: A Space Odyssey"). Tendo como exemplo o fantástico uso da música ao longo de todo filme ou a famosa cena do estupro, a sua realização é tão perfeita que a despeito do número de Gene Kelly cantando "Singin´in the Rain" ser provavelmente a peça musical mais facilmente reconhecida que Hollywood já nos legou, é impossível para qualquer um que já viu "A Clockwork Orange" não associá-la primeiro a Alex cantando-a tranquilamente enquanto espanca a mulher do escritor.
Quem ainda não teve a oportunidade de ver esta obra, veja, é sem dúvida uma obra-prima.

3 comentários:

Kzarmkva disse...

Concordo a 120%

Anónimo disse...

Concordo a 120%
Foi um dos filmes mais marcantes que vi até hoje.

Frambú disse...

muito bom mesmo.

vê lá se um dia te arraso com os teus guilty pleasures. lol

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